Com o início de um novo ano, fazem-se sempre muitos desejos de felicidade. Assim também aqui no Crise e Dinheiro se assinalam esses mesmos votos de sucesso para 2012. No entanto para que a memória não seja curta, gostava de deixar aqui a história (crónica) de algo a que assisti (como muitos outros portugueses) de perto.

Assim, queria aqui deixar uma pequena história sobre “um bom malandro” (passe a expressão) que se começa a aperceber do buraco onde caiu, e que precisa da ajuda de todos para conseguir sair de lá.

A história podia perfeitamente começar assim:

Era uma vez um País com muitos anos de história, com um território pequeno, mas muito bonito, localizado á beira-mar e repleto de contrastes (com montanhas e zonas verdes a norte e planícies solarengas a sul). Não era um país rico, longe disso. Mas os habitantes tinham muito orgulho na sua história, nos seus poetas, nas belezas naturais e nos produtos tradicionais (caso do afamado vinho ou da cortiça onde eram líderes mundiais). O país aderiu a uma espécie de clube de ricos que lhe ofereceu elevadas somas de dinheiro (grande parte foi gasto em estradas, através das quais os países Àricos escoavam as suas exportações) e exigindo à população que deixasse de trabalhar na agricultura ou nas pescas (que concorria com as deles) e se dedicasse aos serviços como os bancos, telecomunicações ou turismo (pois o país era muito apreciado para as férias dos membros desse clube).

Entretanto a indústria do país ia definhando. Os salários tinham aumentado muito e as multinacionais que entretanto se tinham instalado no país (tido como um caso de sucesso no clube dos ricos) rumaram a outras paragens mais a norte. Para agravar a situação, alguns produtos onde o país tinha sucesso e tradições (como o vestuário e do calçado) passaram a sofrer a concorrência agressiva de países longínquos (onde se trabalhava muito mais e se recebia muito menos).

Mas os habitantes não pareciam estar muito preocupados com o assunto. Deslumbrados com o dinheiro, passaram a consumir cada vez mais (todos mudaram de casa, automóvel e electrodomésticos, pagos através de “suaves” prestações bancárias e ganharam o estranho hábito de passar os fins-de-semana em visitas e compras nos hipermercados e centros comercias (que entretanto floresceram como cogumelos).

Os mais deslumbrados de todos eram os governantes. Assim que eram eleitos a primeira coisa que faziam era contratar funcionários (os lugares mais bem pagos eram destinados aos seus colegas e amigos). Apesar de todos os anos chegarem milhares de novos funcionários, os antigos também ficavam (segundo as leis do trabalho do país, não podiam ser despedidos). Os salários não eram brilhantes, mas os empregos eram estáveis e proporcionavam acesso a cuidados de saúde gratuitos, promoções automáticas (bastava uns anos na mesma categoria) e a uma reforma no final da carreira.

Depois de anos a fio desta política, o número de funcionários, espalhados pelos mais diversos organismos entretanto criados (os governantes tinham imenso talento para criar novos nomes para as mesmas entidades) atingiu proporções épicas, No entanto, isso não significava um melhor serviço às populações. Grande parte do investimento ser- via apenas para pagar salários, não chegando aos seus destinatários finais.

O país era dos que mais investia na saúde, mas os habitantes queixavam-se de ser maltratados nos hospitais (ah sim, a classe dos médicos exigia que só os alunos com 20 valores podiam entrar na universidade pelo que o país foi forçado a importar especialistas). Apesar do número de alunos decrescer (os habitantes passaram a ter cada vez menos filhos) os professores aumentavam. Outras áreas como a justiça ou a protecção ao meio ambiente também funcionavam muito mal. Os governantes tinham uma particular obsessão pelas obras (desde rotundas, às auto-estradas e aos estádios de futebol) que custavam sempre muito mais do que se previa inicialmente. As coisas pareciam estar cada vez mais complicadas (o dinheiro do clube dos ricos já tinha acabado há alguns anos). O seu governante mais recente, sempre positivo e confiante, era muito bom a fazer discursos e os habitantes lá iam acreditando que melhores dias viriam.

Só que o país estava cada vez endividado e os habitantes cada vez mais pobres. Os governantes poderiam ter aproveitado a oportunidade para dar o exemplo e reduzir o número de empresas públicas (a maioria dava prejuízos desastrosos) ou de funcionários (que poderiam, se devidamente apoiados, criar novos negócios e dinamizar a economia). Mas como receavam os seus protestos (que, no passado, já tinham custado a queda de alguns governos) eles preferiram seguir a receita do costume: cobrar ainda mais impostos às mesmas pessoas (ou seja, à classe média, justamente aquela que está a subir nos países que mais crescem hoje no mundo). Os credores, por seu lado, começaram a duvidar que as dividas alguma vez fossem pagas e pediram juros cada vez mais altos. Desesperados os governantes tiveram de pedir socorro.

 A ajuda veio agora, mas teme-se que seja tarde de mais. Irá o doente morrer da cura?

 Nota: como devem ter percebido trata-se da história recente de Portugal. Aprender com os erros do passado deve servir para evitar erros no futuro.

Até breve!

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